Mon coeur mis à nu


Les Chaussures
October 18, 2008, 22:14
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Um dia trouxeram meu sapato de volta. Tinha sido arrumado por um velhinho na rua da praia, e o salto quebrado não estava mais quebrado. Era um sapato vermelho e levemente gasto, com jeito de sapato herdado, com jeito de sapato de menina.

Nem sei explicar a alegria de recebê-lo de volta, um misto de prazer em abrir um pacote com felicidade por ter algo que combinava com todos os meus vestidos preferidos de novo. Meu armário nunca era completo sem meu sapato vermelho, sem todas aquelas peculiaridades dele, sem aquela capacidade de se moldar a mim como se eu tivesse coberto meu pé com areia molhada de água do mar.

Minha mãe trouxe ele embrulhado em papel pardo amarrado com barbantes de algodão, junto com a sacola das compras. Minha mãe sabe o que ele significa pra mim, mandou arrumá-lo sem ter que pedir, simplesmente porque sabe o que é bom pra mim e o que não é.

Ao desembrulhar o pacote, eu puxo o lado direito do barbante do laço, que me dá resistência e então se derrete sob os meus dedos. Desenrolo o papel pardo e, ao vislumbrar um pedaço do couro vermelho gasto com furinhos, meu armário parece ser mais meu de novo. Continuo a desembrulhá-lo, coloco os embrulhos no chão, calço o pé direito sem meias de seda. Continua lindo, continua igual, continua lá toda a possibilidade de combinação, todo o conforto, o tamanho perfeito de salto. Penso que nunca vou, de fato, esquecê-lo atrás de algum outro sapato novo, ou deixar de usá-lo naqueles dias em que já acordo exausta.

Quando ela, minha mãe, levou ele para que fosse arrumado, achei que tinha jogado ele fora. Nem consigo explicar qual a sensação que tive quando quis usar o vestido preto caché-coeur e não pude calçar meu sapato. Quase me desesperei. Ela estava na rua e eu esperei do lado da porta que chegasse para que pudesse lhe dizer como não entendia porque ela faria isso, sabendo que era meu sapato preferido! Mas foi só um susto. Ela me disse, calmamente, que só jogaria o sapato fora se não soubesse o quando ele me agradava, o que não era verdade.

Tantas vezes achamos que algo se perdeu, quando, na verdade, está só esperando para renovar-se.



Esforço e pensamento
September 11, 2008, 22:14
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Está chovendo e eu estou tomando banho. Penso em como foi minha manhã, com quem falei, como discuto livremente sobre a minha vida de um jeito levemente doentio-confessional, mas não sei o que fazer para mudar isso. Chego à conclusão de que estou histérica, uma histeria íntima, talvez, uma histeria contida, mas uma histeria inexorável. Reclamo sozinha para mim mesma sobre minha solidão enquanto me ensabôo com uma barra verde, enxáguo, ensabôo novamente. Penso em todas as coisas que tenho que fazer, penso no que comi no almoço, penso se preciso de receita para comprar alguma coisa anti-ansiedade. Penso nele e em sua ausência, penso de novo em pegar minha mala lá e imagino situações hipotéticas que envolvem gatos e choros copiosos, com direito a abraços soluçantes e todo o resto.

Saio do banho. Me seco enquanto penso em que roupa vou botar, murmurando algumas palavras sobre a chuva incessante e o fato de meu guarda-chuva ser demasiado pequeno. Ponho uma combinação bege com renda branca e imagino de novo se devo colocar a blusa-de-um-ombro-só vermelha ou preta.

Por fim, calço meu tênis e saio, tanto esforço para nada.



Lampejo
September 1, 2008, 22:14
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Eu já tive uma luz.

Perdi, há uns meses atrás. As vezes eu procuro, atrás dos móveis, embaixo da cama, dentro de caixas e caixas e caixas. As vezes eu acho que encontro, e dou saltinhos de felicidade, mas na verdade é uma moeda lampejante, uma vela em um altar, um anel de vidro que alguma criança esqueceu por aí.

Eu já tive uma luz. Lembro que era bonita e quente. Quente de um jeito morno, quente de um jeito receptivo. Ela me acalentava quando eu estava sozinha e precisava de alguma coisa. Dentro das caixas cheias de pedrarias, eu acho que encontro a luz, ou num botão de madrepérola em um casaco, ou em um salto de sapato, ou em uma taça de cristal. Mas não é ela, não é ela de verdade.

Eu já tive uma luz. Lembro que era verão, e ela ainda estava lá, então o inverno chegou, e alguma brisa gelada apagou. Era uma luz forte, eu lembro ainda. Com menos clareza que ontem, eu lembro. E vejo, vejo em todos os lugares aquela luz forte e quente. Vejo nas pessoas, e nunca esqueço como era bom.

Eu já tive uma luz. Não sei como ela se apagou. Um dia eu acordei, e ela não estava mais lá. As vezes eu acho que ela fugiu, ou que alguém roubou, mas acho que ninguém roubaria minha luz. Acho que eu deixei alguma janela aberta e ela saltou pra fora de mim.

Está frio lá fora. E eu já tive uma luz.



Never intended.
August 31, 2008, 22:14
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Eu estou lá, do outro lado do Oceano. Estou de costas pra ele, então viro pra trás e olho ao longe. Enxergo um pedacinho de terra, não sei se enxergo ou imagino, e penso por que estou aqui. Estou aqui porque quis. Quis, sempre quis assim, doeu, quase nada. Agora estou lá.

Cansado de olhar para trás, olho para frente, e vejo uma imensidão de terra. Sei que essa não estou imaginando. Terra até o horizonte, terra que não acaba mais, terra, terra, terra, pessoas. Vejo muitas pessoas. Elas correm, elas organizam suas vidas como lhes é peculiar, elas correm para buscar seus filhos no horário certo na escola, elas correm para conter a solidão no Campus, elas correm para não se atrasarem – pecado mortal – para suas aulas de algo realmente importante para o mundo.

Não resisto. Não olho mais para trás, e não dói, não me dói nada. Sei que deveria, mas não. Sou como alguém fatigado que ao mesmo tempo tem a energia de mil pessoas importantes. Sou uma? Não, mas sei que vou ser. O tempo é implacável, não há tempo para imaginar terras destituídas de mim, terras que já foram minhas. Não são mais, enterro os assuntos. Enterro tudo, enterro amigos, família, tudo. Enterro e esqueço, é isso que faço, e não me sinto culpado por isso, nem tampouco me sinto insensível, ou imaturo.

Conheço meu fim. Meu fim-bem. Meu fim-bem é atravessar aquele Campus e ver minha vida toda ser descrita por alguém importante na língua que não é a que deixei do outro lado. É aquilo que existe, e é aquilo que importa. Nada mais importa, músicas, mulheres, para quê? Quais são suas razões reais de existir se não para a diversão efêmera e a dor que não dura mais do que segundos? Não deixo meu psicologismo me encontrar e me enganar. Chego do outro lado do Campus, no tempo em que queria, como queria. Não olho para trás.



Heart Categories
February 20, 2008, 22:14
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O cinismo das morsas e a aleatoriedade dos urubus me envolvem em filó e cascas de laranja. O calor da piscina psicodélica enlouquece as crianças que gritam como terneiros. A torneira jorra leite com nescau. A mocinha existe apesar dos anos nos andes caçando borboletas. Quando chegar em casa não posso esquecer de deixar o gás ligado enquanto como uma maçã. Trabalho como um cachorro e nado como um sapo.



Paráfrases e exaustão.
January 18, 2008, 22:14
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 Não quero pensão alimentícia, obrigado. Não quero migalhas de amor: quero sorver dos perfumes acres do cabelo de quem devidamente me ama, e me ama devidamente, devotadamente, calidamente, incestuosamente. Cansei de lirismo, cansei de comedimentos. Cansei de quem não sabem quem é Álvaro de Campos e quem nunca leu Manuel Bandeira.

 Não quero mais esperar – esperar é para os fracos. Eles que se juntem nos bunkers subterrâneos enquanto eu escavo meu caminho através das minas terrestres. Eu me jogo, me queimo, me rasgo. As rusgas eu engulo porque não são importantes. Nada disso é importante, e nada disso é um jogo; não gosto de jogos, pois eles sempre tendem à lascividade impura e ao detrimento do outro, e aos erros de paralelismo. Não quero ter erros de paralelismo, quero a simetria dos amantes, quero a simetria parnasiana dos poemas, quero ser o ourives mas quero ser a rainha de copas. Quero mandar em mim mesma, e escolher, e ser, e viver, tudo isso sem metafísica alguma. Existo, e isso me basta por si, isso me basta por todos. Eu quero me bastar, também. Se bastar não no sentido Simone de Beauvoir de ser, mas no sentido de que a minha existência é verdadeira, mesmo que sozinha. Não sou desamparada, sou plena, porque entendo, porque canto, por que leio, porque existo, e ser humano e existir é a maior dádiva que poderia me ter sido dada. Assim, eu sei que posso fazer a diferença e ninguém pode me impedir, nem o lirismo comedido, nem o excesso libertário, nem a libido que transborda. Eu existo, e isso basta para que o mundo tenha que me sorver – um dia, à terra – e comigo se irão as larvas, e o feto, mas também se perpetuará, ribombando pelas entranhas do solo, a minha existência que hoje aduba a relva que me cobre. E as minhas idéias, que ficarão nos meus escritos, e a minha genética, que ficará nos meus filhos, e o meu amor, que ficará com alguém que é aquém de mim escolher.

 O meu caminho já está sendo traçado por mim mesma, e nada pode mudar a grandeza que eu tenho, que eu sinto por poder ter filhos, que eu sinto ao sentir o pulsar da carne viva que é o meu corpo. Viva e inteira, quero me perpetuar. E quero, e quero, até a exaustão, e quero correr, e quero mergulhar; je me plonge dans l’eau qui me mange comme un enfant mange des pommes. 



O Destino Glamuroso
December 6, 2007, 22:14
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Falava com uma cadência típica daqueles que sabem falar. Tocava tango, e jazz, e bossa. O cheiro era de um malicioso jasmim, havia uma piscina e o sol se punha com uma vuloptuosidade indiscreta – mas não tão indiscreta quanto suas investidas contra qualquer coisa. Ou tudo.

 

Queria ir à Argentina, e ao Rio. Queria passear por bulevares desconhecidos, e deitar em gramados rodeados por prédios hediondos, e sentir o sol, e as nuvens, e a bruma, e a sombra, e a água. Quero sentir como nunca senti, quero que tudo se acabe. Quero amor, quero muito amor, quero receber amor sem ter que me vender, sem ter que ser, sem ter que lembrar. Não quero lembrar. Quero escrever, quero ter lapsos de cansaço. Quero poder dormir as sesta até as cinco da tarde, sem ter que parar para estudar quem foi o segundo presidente da República da Espada – que, por sinal, foi Floriano Peixoto. Quero poder descansar, e sem ter que fazer escanções silábicas, a não ser que eu queira. Quero, sossegadamente, ler o Livro do Desassossego, e não me sentir culpada por não estar lendo nada que tenha remotamente a ver com alguma prova qualquer. Quero dormir a hora que eu quero, e conseqüentemente ao lado de quem eu quero dormir. Quero a calma da cadência do tango argentino, e o cheiro de jasmim, e o flerte despretensioso, e os banhos de sol, e os filmes, e a felicidade do destino glamuroso podendo ser concretizado.

 

Beira da piscina, novamente, e a camisa é de linho. Mas não o linho pretensiosamente calculado, o linho dissimulado, o linho pronto para ser desabotoado… era o linho que remete às coisas boas de desabotoar uma camisa sem se importar com o que se tem por baixo, e ouvir o que quer que se queira escutar, e tomar um espresso, e comer a boca um do outro num lapso de carinho flamejante. É poder ter vontade das coisas, realmente, sem nenhum subterfúgio. É o que existe, e está lá, e se sabe, e se tém.

 

Nuvens de sal e faltam-me dúvidas. Vejo a estátua; estou deitada sob ela. O sol passa entre as vigas de metal e faz linhas na minha testa.



Confessionalismo desgraciado, culto à inutilidade, cansaço e desabafos de uma moça simples.
November 29, 2007, 22:14
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Ser uma moça hoje em dia tem demasiadas implicações. E, quando eu falo em implicações, porém, não me refiro tão somente às regras do mês, ou ao retoque do pó-de-arroz no nariz, ou não cometer gafes sobre em que lugar da mesa fica o garfo de peixe, mas sim, além destas, coisas mais profundas e de maior responsabilidade.

Sinto-me acometida por lapsos do mais hediondo cansaço. Cansada de ser boa moça e tudo isso que tenho que fazer para ser uma dessas sublimes criaturas. Tenho de me formar numa boa faculdade em um bom curso – que preferencialmente me resarça das inúmeras idas ao shopping que tanto me alegram, e que estas sejam autônomas economicamente -, também os moços devem ter uma boa opinião de mim. Para isto, devo me vestir bem, usar bons perfumes e ter o cabelo impecável, além das unhas bem feitas, das pernas lisinhas e firmes, do sutiã que me dê sustentação e me deixe aprazível aos olhos.

Talvez as moças há cinqüenta anos atrás tivessem uma vida mais fácil. A elas, bastava a parte estética e de tornar sua casa um “Home Sweet Home”. Ser uma boa cozinheira, saber coser meias, colocar propriamente a mesa, ser uma boa anfitriã, manter-se limpa para seu marido, varrer a casa, cuidar dos filhos… E a mim, tudo isso e tudo mais que a sociedade impõe, de ser forte, de querer coisas boas para mim profissionalmente, de trabalhar – e fazê-lo bem -, de ser sexualmente responsável, de ter lido o último livro do Phillip Roth, de ter assuntos em qualquer roda de amigos, de saber beber e me divertir sem chegar até o ponto de querer tirar a blusa.

Digo que para mim está sendo difícil. Tudo isso é quase inconciliável. Ter felicidade profissional, estética e conjugal gera infinitos conflitos de interesse, e eu sinto como se nada mais que eu fizesse fosse o suficiente. Veja, quando eu ouvia sobre a tal praga da mulher contemporânea, as reclamações da Martha Medeiros, os vômitos artropódicos da Clarice Lispector, os conflitos Carrie-Miranda-Samantha-Charlotte, achava que eram mentiras e exageros de histéricas esfomeadas demais pela vida. Eu, na minha inocência impúbere, da minha concha, não sentia nada disso. Não sentia como é difícil ser adulta, não sabia como era ser sexualmente ativa, ou ter falta de auto-estima, ou ter que lidar com o futuro, ou trabalhar, ou tentar ser impecável. Agora, me sinto muito gente-grande, e com esse sentimento também me falta qualquer coisa de felicidade descompromissada. Acho que meus dias de filmes inócuos, sem a culpa de não estar estudando, acabaram, assim como os dias de espera mensais, assim como a possibilidade da irresponsabilidade. 

Estou fatigada de existir, e de querer ser plena o tempo todo.  Creio, portanto, que essa tarefa é impossível e impraticável. Não posso ser tudo ao mesmo tempo, e tenho medo, e sou insegura, e as vezes sou triste, e me sinto mal, mas tenho que parar – pelo menos parcialmente – com isso. Esse é o verdadeiro mal da mulher moderna, não o ter que fazer todas as coisas, mas ter medo de falhar ao tentar realizar tudo. É impossível ser boa mãe, boa cozinheira, linda e uma deusa do sexo, tudo isso enquanto se lê Nietzsche e vê Godard, toma vinho branco e estuda a teoria do direito anglo-saxão. A cultura do feminismo foi muito cruel conosco, ela nos coloca num palco à multitaskear infinitamente, quando muitas vezes só se quer ser feliz. Bem, não enveredemos por esses cantos longínquos da alma que não me cabe elucidar. Só sei que quero ser humana novamente, e poder ter o lirismo descompromissado da menina, pelo menos só as vezes; escutar Britney, ler Gossip Girl e comer suspiros de tarde realmente se tornam tão atraentes quanto qualquer coisa pode ser.



Resignação
November 26, 2007, 22:14
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Resignação illustrated A difusão da arte em meu meio tem me causado infindáveis embaraços. Tentei, inúmeras vezes, adentrar por mim mesma nesse meio, mas levei mais tapas na cara do que qualquer criatura poderia levar. Tentei tirar fotos, mas tantos ensaios fiz do meu dedo indicador, ou de aparentes fantasmas, que passei a desistir desse tipo de arte. Tentei também o desenho, inúmeras vezes. Desse tempo, restou-me cansaço, muitos lápis 6B e alguns croquis semi-decentes de moda, mas que hoje em dia me parecem cada vez piores. A música não posso dizer que tentei. Sorte, portanto, de minha família, pois meu ouvido não é dos melhores, tão pouco minha habilidade coordeno-rítmica, e menos ainda meu repertoire.

Frustrada com minhas categóricas humilhações diante de meus artsy-pseudo-friends, venho aqui para declarar meu atestado de óbito artístico; cansei de ser rejeitada inúmeras vezes por minha falta de talento, e passarei a partir de agora de aceitar, resignada, minha posição inferior diante de geniais criadores. Não vou mudar o mundo com meus desenhos, nem elucidar mentes com minhas hablidades musicais. Não vou tentar fotografar ninguém, prometo, a não ser em festas infantis nas quais seja possível escapar – já que serei a única sem um infante em punho. Cansei dessa eterna rejeição, senhoras e senhores, e aqui me aposento da arte e me condiciono a bureaucracia que tanto me acomete, frustra, mas que soluciona. Aqui jaz, para o bem da humanidade, minha auto-estima artística e meu conjunto de tentativas.