Mon coeur mis à nu


Maintenant, on sent
October 19, 2008, 22:14
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Como eu gosto de sentir o que me fazes sentir, com todo o toque inteiro que te propões a me dar. Gosto de ver o teu rosto, como ele é plácido e calmo, gosto da cor escura das tuas pálpebras e da magnitude da tua inocência pálida. Te sentir em mim é dádiva que me faz calar e resmungar coisas sem sentido, te sentir em mim me faz pensar em tudo que é bom nesse mundo, me deixa silenciosa e risonha, morna e pulsante, molhada e completa. Tocar o teu peito e sentir a temperatura da tua alma me arrepia de felicidade, me sinto exausta em ti e ao mesmo tempo tenho o fôlego de um milhão de subaquáticos.

Quero entrar dentro de ti por tua pele, quero te apertar junto de mim até sentir o teu coração bater no meu peito e ouvir tua respiração antes de que possas tu mesmo ouvi-la. Gosto de passar o dorso da minha mão por teus braços e ver o quão macia a aspereza de um menino pode ser, ouço teu sono profundo do meu lado e sei que nada mais pode me tirar dali naquele momento. O tempo corre mas sinto que a sensação acetinada de ondas que percorrem os meus ombros não vai acabar. O perfume do teu pescoço e a sensação de enfiar os dedos nos teus cabelos perdurará, eu sei. Ver no espelho que são os meus olhos as costas tuas que se dobram como montanhas de areia branca, sentir teu todo me envolver e querer me engolir e me embrulhar dentro de felicidade me despertam mais do que um som qualquer no meio da noite. O sono decente e carinhoso que segue o gozo de te ter comigo paga os pecados da maldade do meu coração.

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Les Chaussures
October 18, 2008, 22:14
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Um dia trouxeram meu sapato de volta. Tinha sido arrumado por um velhinho na rua da praia, e o salto quebrado não estava mais quebrado. Era um sapato vermelho e levemente gasto, com jeito de sapato herdado, com jeito de sapato de menina.

Nem sei explicar a alegria de recebê-lo de volta, um misto de prazer em abrir um pacote com felicidade por ter algo que combinava com todos os meus vestidos preferidos de novo. Meu armário nunca era completo sem meu sapato vermelho, sem todas aquelas peculiaridades dele, sem aquela capacidade de se moldar a mim como se eu tivesse coberto meu pé com areia molhada de água do mar.

Minha mãe trouxe ele embrulhado em papel pardo amarrado com barbantes de algodão, junto com a sacola das compras. Minha mãe sabe o que ele significa pra mim, mandou arrumá-lo sem ter que pedir, simplesmente porque sabe o que é bom pra mim e o que não é.

Ao desembrulhar o pacote, eu puxo o lado direito do barbante do laço, que me dá resistência e então se derrete sob os meus dedos. Desenrolo o papel pardo e, ao vislumbrar um pedaço do couro vermelho gasto com furinhos, meu armário parece ser mais meu de novo. Continuo a desembrulhá-lo, coloco os embrulhos no chão, calço o pé direito sem meias de seda. Continua lindo, continua igual, continua lá toda a possibilidade de combinação, todo o conforto, o tamanho perfeito de salto. Penso que nunca vou, de fato, esquecê-lo atrás de algum outro sapato novo, ou deixar de usá-lo naqueles dias em que já acordo exausta.

Quando ela, minha mãe, levou ele para que fosse arrumado, achei que tinha jogado ele fora. Nem consigo explicar qual a sensação que tive quando quis usar o vestido preto caché-coeur e não pude calçar meu sapato. Quase me desesperei. Ela estava na rua e eu esperei do lado da porta que chegasse para que pudesse lhe dizer como não entendia porque ela faria isso, sabendo que era meu sapato preferido! Mas foi só um susto. Ela me disse, calmamente, que só jogaria o sapato fora se não soubesse o quando ele me agradava, o que não era verdade.

Tantas vezes achamos que algo se perdeu, quando, na verdade, está só esperando para renovar-se.