Mon coeur mis à nu


Esforço e pensamento
September 11, 2008, 22:14
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Está chovendo e eu estou tomando banho. Penso em como foi minha manhã, com quem falei, como discuto livremente sobre a minha vida de um jeito levemente doentio-confessional, mas não sei o que fazer para mudar isso. Chego à conclusão de que estou histérica, uma histeria íntima, talvez, uma histeria contida, mas uma histeria inexorável. Reclamo sozinha para mim mesma sobre minha solidão enquanto me ensabôo com uma barra verde, enxáguo, ensabôo novamente. Penso em todas as coisas que tenho que fazer, penso no que comi no almoço, penso se preciso de receita para comprar alguma coisa anti-ansiedade. Penso nele e em sua ausência, penso de novo em pegar minha mala lá e imagino situações hipotéticas que envolvem gatos e choros copiosos, com direito a abraços soluçantes e todo o resto.

Saio do banho. Me seco enquanto penso em que roupa vou botar, murmurando algumas palavras sobre a chuva incessante e o fato de meu guarda-chuva ser demasiado pequeno. Ponho uma combinação bege com renda branca e imagino de novo se devo colocar a blusa-de-um-ombro-só vermelha ou preta.

Por fim, calço meu tênis e saio, tanto esforço para nada.



Lampejo
September 1, 2008, 22:14
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Eu já tive uma luz.

Perdi, há uns meses atrás. As vezes eu procuro, atrás dos móveis, embaixo da cama, dentro de caixas e caixas e caixas. As vezes eu acho que encontro, e dou saltinhos de felicidade, mas na verdade é uma moeda lampejante, uma vela em um altar, um anel de vidro que alguma criança esqueceu por aí.

Eu já tive uma luz. Lembro que era bonita e quente. Quente de um jeito morno, quente de um jeito receptivo. Ela me acalentava quando eu estava sozinha e precisava de alguma coisa. Dentro das caixas cheias de pedrarias, eu acho que encontro a luz, ou num botão de madrepérola em um casaco, ou em um salto de sapato, ou em uma taça de cristal. Mas não é ela, não é ela de verdade.

Eu já tive uma luz. Lembro que era verão, e ela ainda estava lá, então o inverno chegou, e alguma brisa gelada apagou. Era uma luz forte, eu lembro ainda. Com menos clareza que ontem, eu lembro. E vejo, vejo em todos os lugares aquela luz forte e quente. Vejo nas pessoas, e nunca esqueço como era bom.

Eu já tive uma luz. Não sei como ela se apagou. Um dia eu acordei, e ela não estava mais lá. As vezes eu acho que ela fugiu, ou que alguém roubou, mas acho que ninguém roubaria minha luz. Acho que eu deixei alguma janela aberta e ela saltou pra fora de mim.

Está frio lá fora. E eu já tive uma luz.