Mon coeur mis à nu


Paráfrases e exaustão.
January 18, 2008, 22:14
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 Não quero pensão alimentícia, obrigado. Não quero migalhas de amor: quero sorver dos perfumes acres do cabelo de quem devidamente me ama, e me ama devidamente, devotadamente, calidamente, incestuosamente. Cansei de lirismo, cansei de comedimentos. Cansei de quem não sabem quem é Álvaro de Campos e quem nunca leu Manuel Bandeira.

 Não quero mais esperar – esperar é para os fracos. Eles que se juntem nos bunkers subterrâneos enquanto eu escavo meu caminho através das minas terrestres. Eu me jogo, me queimo, me rasgo. As rusgas eu engulo porque não são importantes. Nada disso é importante, e nada disso é um jogo; não gosto de jogos, pois eles sempre tendem à lascividade impura e ao detrimento do outro, e aos erros de paralelismo. Não quero ter erros de paralelismo, quero a simetria dos amantes, quero a simetria parnasiana dos poemas, quero ser o ourives mas quero ser a rainha de copas. Quero mandar em mim mesma, e escolher, e ser, e viver, tudo isso sem metafísica alguma. Existo, e isso me basta por si, isso me basta por todos. Eu quero me bastar, também. Se bastar não no sentido Simone de Beauvoir de ser, mas no sentido de que a minha existência é verdadeira, mesmo que sozinha. Não sou desamparada, sou plena, porque entendo, porque canto, por que leio, porque existo, e ser humano e existir é a maior dádiva que poderia me ter sido dada. Assim, eu sei que posso fazer a diferença e ninguém pode me impedir, nem o lirismo comedido, nem o excesso libertário, nem a libido que transborda. Eu existo, e isso basta para que o mundo tenha que me sorver – um dia, à terra – e comigo se irão as larvas, e o feto, mas também se perpetuará, ribombando pelas entranhas do solo, a minha existência que hoje aduba a relva que me cobre. E as minhas idéias, que ficarão nos meus escritos, e a minha genética, que ficará nos meus filhos, e o meu amor, que ficará com alguém que é aquém de mim escolher.

 O meu caminho já está sendo traçado por mim mesma, e nada pode mudar a grandeza que eu tenho, que eu sinto por poder ter filhos, que eu sinto ao sentir o pulsar da carne viva que é o meu corpo. Viva e inteira, quero me perpetuar. E quero, e quero, até a exaustão, e quero correr, e quero mergulhar; je me plonge dans l’eau qui me mange comme un enfant mange des pommes. 


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Eu, eu, eu, eu, eu, eu… adoro blogs por isso. >)

Comment by Júlia Otero




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