Mon coeur mis à nu


O Destino Glamuroso
December 6, 2007, 22:14
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Falava com uma cadência típica daqueles que sabem falar. Tocava tango, e jazz, e bossa. O cheiro era de um malicioso jasmim, havia uma piscina e o sol se punha com uma vuloptuosidade indiscreta – mas não tão indiscreta quanto suas investidas contra qualquer coisa. Ou tudo.

 

Queria ir à Argentina, e ao Rio. Queria passear por bulevares desconhecidos, e deitar em gramados rodeados por prédios hediondos, e sentir o sol, e as nuvens, e a bruma, e a sombra, e a água. Quero sentir como nunca senti, quero que tudo se acabe. Quero amor, quero muito amor, quero receber amor sem ter que me vender, sem ter que ser, sem ter que lembrar. Não quero lembrar. Quero escrever, quero ter lapsos de cansaço. Quero poder dormir as sesta até as cinco da tarde, sem ter que parar para estudar quem foi o segundo presidente da República da Espada – que, por sinal, foi Floriano Peixoto. Quero poder descansar, e sem ter que fazer escanções silábicas, a não ser que eu queira. Quero, sossegadamente, ler o Livro do Desassossego, e não me sentir culpada por não estar lendo nada que tenha remotamente a ver com alguma prova qualquer. Quero dormir a hora que eu quero, e conseqüentemente ao lado de quem eu quero dormir. Quero a calma da cadência do tango argentino, e o cheiro de jasmim, e o flerte despretensioso, e os banhos de sol, e os filmes, e a felicidade do destino glamuroso podendo ser concretizado.

 

Beira da piscina, novamente, e a camisa é de linho. Mas não o linho pretensiosamente calculado, o linho dissimulado, o linho pronto para ser desabotoado… era o linho que remete às coisas boas de desabotoar uma camisa sem se importar com o que se tem por baixo, e ouvir o que quer que se queira escutar, e tomar um espresso, e comer a boca um do outro num lapso de carinho flamejante. É poder ter vontade das coisas, realmente, sem nenhum subterfúgio. É o que existe, e está lá, e se sabe, e se tém.

 

Nuvens de sal e faltam-me dúvidas. Vejo a estátua; estou deitada sob ela. O sol passa entre as vigas de metal e faz linhas na minha testa.


1 Comment so far
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eu te tomaria debaixo da minha asa, se asa tivesse!

Comment by tiago




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