Mon coeur mis à nu


Confessionalismo desgraciado, culto à inutilidade, cansaço e desabafos de uma moça simples.
November 29, 2007, 22:14
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Ser uma moça hoje em dia tem demasiadas implicações. E, quando eu falo em implicações, porém, não me refiro tão somente às regras do mês, ou ao retoque do pó-de-arroz no nariz, ou não cometer gafes sobre em que lugar da mesa fica o garfo de peixe, mas sim, além destas, coisas mais profundas e de maior responsabilidade.

Sinto-me acometida por lapsos do mais hediondo cansaço. Cansada de ser boa moça e tudo isso que tenho que fazer para ser uma dessas sublimes criaturas. Tenho de me formar numa boa faculdade em um bom curso – que preferencialmente me resarça das inúmeras idas ao shopping que tanto me alegram, e que estas sejam autônomas economicamente -, também os moços devem ter uma boa opinião de mim. Para isto, devo me vestir bem, usar bons perfumes e ter o cabelo impecável, além das unhas bem feitas, das pernas lisinhas e firmes, do sutiã que me dê sustentação e me deixe aprazível aos olhos.

Talvez as moças há cinqüenta anos atrás tivessem uma vida mais fácil. A elas, bastava a parte estética e de tornar sua casa um “Home Sweet Home”. Ser uma boa cozinheira, saber coser meias, colocar propriamente a mesa, ser uma boa anfitriã, manter-se limpa para seu marido, varrer a casa, cuidar dos filhos… E a mim, tudo isso e tudo mais que a sociedade impõe, de ser forte, de querer coisas boas para mim profissionalmente, de trabalhar – e fazê-lo bem -, de ser sexualmente responsável, de ter lido o último livro do Phillip Roth, de ter assuntos em qualquer roda de amigos, de saber beber e me divertir sem chegar até o ponto de querer tirar a blusa.

Digo que para mim está sendo difícil. Tudo isso é quase inconciliável. Ter felicidade profissional, estética e conjugal gera infinitos conflitos de interesse, e eu sinto como se nada mais que eu fizesse fosse o suficiente. Veja, quando eu ouvia sobre a tal praga da mulher contemporânea, as reclamações da Martha Medeiros, os vômitos artropódicos da Clarice Lispector, os conflitos Carrie-Miranda-Samantha-Charlotte, achava que eram mentiras e exageros de histéricas esfomeadas demais pela vida. Eu, na minha inocência impúbere, da minha concha, não sentia nada disso. Não sentia como é difícil ser adulta, não sabia como era ser sexualmente ativa, ou ter falta de auto-estima, ou ter que lidar com o futuro, ou trabalhar, ou tentar ser impecável. Agora, me sinto muito gente-grande, e com esse sentimento também me falta qualquer coisa de felicidade descompromissada. Acho que meus dias de filmes inócuos, sem a culpa de não estar estudando, acabaram, assim como os dias de espera mensais, assim como a possibilidade da irresponsabilidade. 

Estou fatigada de existir, e de querer ser plena o tempo todo.  Creio, portanto, que essa tarefa é impossível e impraticável. Não posso ser tudo ao mesmo tempo, e tenho medo, e sou insegura, e as vezes sou triste, e me sinto mal, mas tenho que parar – pelo menos parcialmente – com isso. Esse é o verdadeiro mal da mulher moderna, não o ter que fazer todas as coisas, mas ter medo de falhar ao tentar realizar tudo. É impossível ser boa mãe, boa cozinheira, linda e uma deusa do sexo, tudo isso enquanto se lê Nietzsche e vê Godard, toma vinho branco e estuda a teoria do direito anglo-saxão. A cultura do feminismo foi muito cruel conosco, ela nos coloca num palco à multitaskear infinitamente, quando muitas vezes só se quer ser feliz. Bem, não enveredemos por esses cantos longínquos da alma que não me cabe elucidar. Só sei que quero ser humana novamente, e poder ter o lirismo descompromissado da menina, pelo menos só as vezes; escutar Britney, ler Gossip Girl e comer suspiros de tarde realmente se tornam tão atraentes quanto qualquer coisa pode ser.


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